37 anos depois...Há dois anos decidi comprar um computador. Até então resistira à idéia. Achava que não tinha nada a ver com a informática. A vida inteira datilografei meus textos. Não era um bom datilógrafo mas escrevia rápido. Tinha com as máquinas de escrever uma relação antiga. Especialmente com a Olivetti. Gostava do design, da leveza, da cor, do teclado, do jeito delas. Tive várias. Grandes, médias e pequenas.. Uma delas, Lettera 22 viajou comigo mundo afora.
Em 1992 na Alemanha, durante a documenta 9, hospedado em Bad Wildungen, por falta de hotel em Kassel, minha Lettera 22 me fez uma falta enorme. Mandei minhas matérias para o Jornal de Brasília escritas a mão. Em letra de forma. Legíveis.
Devem ter pensado que enlouquecera. Não foram muito bem-vindas pois tinham de ser datilografadas para descerem para a gráfica.
Nas termas enquanto escrevia vendo o cuidado jardim, o gazebo, o bosque verde, em que o imperador Wilhelm 2º passeava, pensei em Hemingway em uma ambulância em algum lugar da Itália, escrevendo a mão em um pequeno bloco sobre trincheiras, batalhas, morte e sofrimento na 1ª Guerra Mundial.
Eu estava ali, em Bad Wildungen na Alemanha, à meia hora de Kassel. Não muito distante havia uma guerra. A da Bósnia. Sarajevo bombardeada. Destruída. E eu olhando o jardim. Pensando em Wilhelm 2º, o imperador que agraciou meu bisavô Friederich com o título de Graff von Schmidt, barão, por seu trabalho de arquiteto na Catedral de Colônia. Depois, na Áustria, em Viena, construiu a Rathaus.
Ali, na sacada, escrevendo sobre arte e artistas. Lembrando e comentando o fabuloso creme de agrião que comera no jantar. Vendo a vida passar. Tranqüila, devagar. Lembrei de Anthony Burgess.
Biógrafo famoso em seu livro sobre Hemingway não deixou pedra sobre pedra. Reduziu o mito alimentado a vida toda pelo escritor a zero. Implacável mostrou-o como um fanfarrão, falastrão, pouco confiável, irresponsável, machista, chauvinista empedernido. Estivesse vivo Hemingway sem dúvida o faria engolir algumas páginas da biografia destruidora. Afinal, tinha que manter a fama de he-man, macho.
Das coisas que aprendi ao lê-lo foi nunca perder a perspectiva. O horizonte. Tinha vinte dois anos quando li em 1952 The Old Man and the Sea, O Velho e o Mar. Edição americana da Scribners. Santiago, o pescador, protagonista da ação, dizia que "um homem pode ser derrotado mas não destruído".
Lembro da sobrecapa azul, da capa dura. Do desenho feito por Adriana Ivancich, jovem que lhe serviu de musa e inspiração em Do outro lado do rio entre as árvores, publicado em 1950. Paixão platônica? Difícil. Agora estava ali. Olhando o bosque. Sentindo o cheiro das arvores. Ouvindo o canto dos pássaros. Escrevendo.
Na documenta o que mais me chamou a atenção foi a instalação do russo Ilya Kabakov. Ficava fora do Museum Fridericianum. Chamava-se Toilet. Reproduzia em tamanho natural um mictório público, desses de estações, de rodoviárias. Os urinóis e privadas, fechadas, desativadas.
O local inteiro transformado em moradia. Fogões, mesa de jantar, cama, armários, cadeiras dispostas ao lado ou sobre os aparelhos sanitários. Estranho. Um caos organizado. Em uma mesa, vaso de flores e material escolar. Uma visão da Rússia não muito comum.
Lembranças, memórias... Agora estou aqui. Escrevendo no micro que comprei há dois anos. As Olivetti estão em um quarto de despejo. Os entendidos de Feng Shui afirmam que guarda coisas do passado é atraso de vida.Talvez seja. Mas, como vou desfazer-me das Olivetti em que escrevi tanta coisa? Durante tantos anos? Especialmente da que foi comigo para Seca e Meca?
Agora são 4 da madrugada de domingo, de 29 de setembro. Este texto é para o lançamento do jornal artes: na Internet. No dia 12 de novembro. Nessa data, em 1965, há 37 anos artes: foi lançado no Museu de Arte de São Paulo, na rua Sete de Abril, 230. Pietro Maria Bardi compreendeu a que vínhamos, Laïs Moura e eu. Abriu as portas para nós. Nosso primeiro vagido foi entre Picasso, Matisse. Leger, Toulouse-Lautrec, Van Gogh, Gaugin. De lá para cá muita água rolou. O percurso foi longo. Árduo. Difícil. Mas, chegamos aqui.
Carlos von Schmidt
29 de setembro de 2002
Ilustração no painel de navegação:
Toulouse Lautrec (Ambassadeurs Aristede)/Carlos von Schmidt
São Paulo 5 de novembro de 2003
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