 Sonia Prieto no seu atelier parisiense
Uma brasileira em ParisEm 1996, quando escrevi Na cama com Picasso, Sonia Prieto, brasileira, formada na Sorbonne em História da Arte e vivendo entre São Paulo e Paris, foi para mim de valor inestimável.
Suas pesquisas sobre Picasso no Bateau Lavoir esclareceram pontos até então obscuros. Muitos deles sequer mencionados na extensa bibliografia consultada. Devo-lhe, sem exagero, gratidão eterna.
Do lançamento do livro até hoje, sempre nos vimos em São Paulo por ocasião de suas viagens ao Brasil. Agora nos vimos em Paris.
Em um momento muito especial para ela. Na hora em que expõe 32 desenhos de nus no espaço SIFAS da Rue Richelieu, 10, de 12 de junho a 12 de julho. Ano passado expôs pinturas, retratos.
 Louise. Nu. Carvão.
Sua exposição coincide com outra exposição de 132 desenhos de Leonardo da Vinci, no Louvre. Ver o mestre e a aluna foi uma experiência mais do que gratificante.
Enquanto o italiano demonstra conhecimento que extrapola os limites da arte e da cultura, a brasileira, ao contrário de Picasso, não acha. Procura.
Nessa procura está toda beleza desses nus em que corpos jovens, bonitos, se oferecem à artista em total entrega.
 Adèle. Nu. Carvão.
Gostaria de saber o que Pierre Francastel, famoso professor de Sonia na Sorbonne, pensaria desses desenhos. Será que veria nas linhas que captam, na imobilidade da pose a espontaneidade do gesto? No traço contínuo, a leveza, a sutileza, a sensualidade que domina e marca cada desenho?
Tenho certeza que sim. Pois nesses desenhos, em que a imobilidade e o movimento são fundamentais, uma artista se revela. Sonia Prieto.
Se a História da Arte perdeu uma historiadora de escola, a Arte ganhou uma artista.
O nu de Sonia Prieto é apenas o começo. Não direi que ela é uma artista que promete. Aqui não há promessa. Há Arte. Com A maiúscula. Há uma artista.
Carlos von Schmidt
Paris 21/6/2003 23 horas. Oficialmente, o verão europeu começou hoje.
 Sentada lendo. Nu. Carvão.
Sonia Prieto é pintora formada pela Escola de Belas Artes de São Paulo e foi bolsista do Governo Francês, quando se diplomou em História da Arte pela Sorbonne. Atualmente ela vive entre São Paulo e Paris, dedicando-se à sua arte e continuando suas pesquisas sobre Cor e Arquitetura.
Respostas de Sonia Prieto às perguntas de Carlos von Schmidt. Paris, 20 de junho de 2003 (durante sua exposição de desenhos – “Séduction du Nu au Masculin et au Féminin” – Espace SIFAS, 12/6 a 12/7/2003).
1. Carlos von Schmidt - No Louvre, 132 desenhos de Leonardo da Vinci revelam aspectos dessa técnica milenar. Se você tivesse que escolher entre desenhar e pintar (opção única), qual seria? Por quê?
Sonia Prieto - Toda obra plástica é uma obra de expressão. O desenho é um modo de expressão e a pintura um outro. Não sei quem disse que o desenho é a moral do quadro. Porém, mesmo quando o desenho é considerado um esboço, um croquis, muitas vezes o esboço é superior à pintura. Em suma, o desenho pode ser considerado como um projeto de uma obra a ser realizada, mas ele pode ter a qualidade de uma obra realizada. Escolher entre desenhar e pintar... No ano passado fiz uma exposição de pinturas aqui, mas os desenhos que exponho atualmente em Paris têm para mim o valor de obras concluidas. Desde o instante em que toco com a ponta do carvão a folha de papel branco, que os inicio como desenhos, não tenho dúvida quanto à escolha: serão trabalhos gráficos que existirão por si mesmos. Nesses momentos, o desenho foi escolhido como forma de expressão. Em outros momentos, quando tenho diante de mim um modelo a partir do qual farei uma pintura, os croquis iniciais sobre papel existem em função da futura pintura a oleo. Assim, é impossivel fazer uma opção única, definitiva. Ela se faz em função dos objetivos e das possibilidades. É claro que às vezes as condições materiais impedem de pintar e o desenho pode ser feito em qualquer situação: sobre uma parede, um canto de jornal, seja na rua, num trem... numa prisão, como Schiele...
 Sentado sobre o tamborete. Nu. Carvão.
2. CVS – Entre Michelangelo e Leonardo, qual?
SP – Na minha opinião, no caso de Michelangelo, vejo desenhos de escultor (mesmo nas pinturas da Capela Sixtina os personagens são monumentais, escultóricos); já no caso de Leonardo trata-se de desenhos de pintor quando não são anotações de suas pesquisas científicas. De qualquer maneira, os desenhos de ambos são magníficos, de uma dimensão inatingível, são obras de grandes mestres que continuam a nos fascinar, e a nos ensinar, pela maneira direta, despojada, poética, sempre atual, revelando em toda plenitude a beleza de figuras humanas, de animais etc.
3. CVS - Modelo? Você prefere masculino ou feminino? Ou para você o corpo humano não tem sexo? Neutro?
SP – O que me interessa na figura é o caráter próprio ao personagem, a pessoa humana é que é interessante. Claro que no que se refere aos corpos humanos, ao desenhá-los vou tentar captar o caráter de cada um, seja ele masculino ou feminino (ou neutro?), vou me concentrar na atitude de um gesto, no ritmo de um movimento, na beleza intrinsica à vida, no gesto fugitivo de um instante, tentando traduzi-los plasticamente sobre o papel. Tudo isso se faz, não há uma fórmula. Entre modelo e artista, o diálogo é rapido, direto. Ou não existe.
4. CVS – No século que passou quem você destacaria como desenhista?
SP – Vêm-me à mente alguns nomes europeus: Matisse, Dufy, os da Escola de Viena... Klimt, Schiele. Naturalmente também há grandes desenhistas brasileiros: Marcelo Grassman, Evandro Carlos Jardim, a incomparável Ivone Couto... E tantos outros...
5. CVS – O que é o desenho para você?
SP – Já tentei responder na primeira pergunta. Desenhar é poder se exprimir plasticamente. Desenhar também é ter uma ferramenta de trabalho. Acima de tudo, desenhar é prolongar seu pensamento para fora de si mesmo - seja captando e transmitindo a beleza que nos toca (e beleza não tem nada a ver com os canones comerciais), seja colocar no papel (ou outro suporte) aquilo que imaginamos e que se transmutará, ao longo do fazer plástico, em trabalho de arte.
6. – CVS – E a arte?
SP – Arte é uma quintessência de espiritualidade que emana, que se despreende de um objeto pictórico, escultórico, arquitetônico, imaginado e fabricado por um ser humano.
 Dançarina em repouso. Nu. Carvão.
7. – CVS – Como você escolhe seus modelos?
SP – Pode acontecer que eu escolha meus modelos, mas nem sempre. No que se refere aos retratos, há escolha mais freqüentemente. Não escolher também é formidavel, como ocorre com as obras sob encomenda quando alguém vem ao atelier para que eu pinte seu retrato a óleo. Nos retratos o desafio é traduzir uma semelhança. Dizem (digo bem, dizem...) que capto bem a personalidade, única, que ela vem sempre à tona no quadro; quadro que, ao mesmo tempo, é uma pintura, com todas as abstrações que uma pintura comporta, e não uma fotografia.
No caso dos nus, tenho me contentado com os excelentes modelos profissionais que posam nos ateliers de Paris. Suas poses são espontâneas, jamais solicitadas ou dirigidas pelas pessoas que desenham. Penso que esse é o segredo da coerência das atitudes, sempre belíssimas, seja o modelo masculino, feminino, seja magro, gordo, jovem, menos jovem. Posso citar modelos parisienses excelentes, que infelizmente deixaram recentemente de posar, como Marcelle, Lia Garcia ou um rapaz do qual não retive o nome. Na verdade todos são bons.
8. – CVS – Quanto tempo posa um modelo? Quanto tempo você leva para captar uma pose?
SP – A pose pode durar 5, 10 ou 15 minutos no máximo. É o prazo que a gente tem para ver, desenhar, reinterpretar a pose; e é o caso dos trabalhos expostos hoje, que são como são, com suas linhas fluidas, sem arrependimentos, sem retomadas, sem correções, caso contrário perdem a graça, a força que caracteriza cada um. Quando se desenha um nu, o difícil é traduzir sem hesitar a energia de vida própria a cada um, é um desafio a cada pose, e isso é fascinante. Às vezes se acerta... Desenhei muito, muitíssimo, e de inúmeros desenhos selecionei uns 30 para a exposição atual. Na verdade, desenho compulsivamente desde os 4 anos de idade, é toda uma vida... e esses desenhos, mesmo os “rápidos”, são fruto de longos anos de fidelidade à beleza que nos rodeia (beleza em termos, ela existe mesmo na tristeza). Desde criança desenhava nas últimas páginas dos cadernos para desespero de meus pais e professores, ou nas portas do guarda-roupa com giz da escola. Na época de estudante da Escola de Belas Artes de São Paulo, durante viagens à Bahia, desenhava os meninos do Pelourinho. Ainda uso giz, aliado ao carvão!
9. – CVS – Desenhar, pintar, em Paris é mais inspirador do que em São Paulo, Rio, Salvador, ou não faz a menor diferença?
SP – O local pode ser mais ou menos estimulante. Mas a motivação se encontra em mim mesma. O estado de espírito do artista conta mais que o local. Sinto, às vezes, mais estímulo desenhando em um humilde café. Mas confesso que meu sonho é dispor de um grande atelier, para pintar grandes telas, desenhar com toda liberdade gestual que sinto querer se manifestar faz tempo.
 Rapaz em pé de braços cruzados. Nu. Carvão.
Tradução do texto impresso no verso do convite da exposição de desenhos de Sonia Prieto, «Sedução do Nu Masculino e Feminino», que se realiza em Paris, no Espaço SIFAS (n° 10 da rua Richelieu), de 12 de junho a 12 de julho de 2003.
O NU: UM OLHAR ATUAL Wolfgang Pfeiffer*
Itanhaém, abril 2003 Conheci Sonia Prieto em Ouro Preto, Brasil, onde ela desenhava motivos captados dos monumentos barrocos. Ela ainda pertencia à Escola de Belas Artes de São Paulo, como aluna dos ateliers de Pintura, mas seus trabalhos gráficos e suas telas já tinham sido objeto de importantes prêmios em exposições de arte. Constatei que ela continuou com perseverança e um estilo bem pessoal seu trabalho de artista. Mesmo na época em que estava mais ocupada com pesquisas teóricas (tese de Doutorado sobre a cor no espaço urbano) nas Universidades de São Paulo e de Paris, Sonia realizou interessantes desenhos e pinturas influenciados pela observação da epiderme das fachadas arquiteturais.
Seus desenhos atuais, um retorno ao tema do Nu, não procuram um caráter de doce sensualidade. As poses desses personagens femininos e masculinos, algumas espontâneas, outras quase estatuárias, guardam a realidade da vida. É uma das qualidades permanentes dessas obras que apreciamos muito. Sonia traduz os movimentos pela segurança e a elegância do traço. O que nos impressiona também é essa impressão de instantâneos, as atitudes corporais são como que “capturadas em pleno vôo”. São poses acontecendo, que se completam no espaço. Com sua estrutura e graça, essas figuras, que revelam um conhecimento clássico das formas, possuem também um elan totalmente livre e novo, impondo-se aos nossos olhos e à nossa sensibilidade em sua transfiguração creativa.
(*) O Professor Dr. Wolfgang Pfeiffer é historiador da Arte, antigo diretor do MAM (Museu de Arte Moderna) e do MAC (Museu de Arte Contemporânea), ambos em São Paulo, onde ele foi também adido cultural da Embaixada da Alemanha durante dezessete anos.
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