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 Baravelli   Estudo de Brasileira   2008   acrílica e crayon s/ compensado  113 x 69 cm
Baravelli Estudo de Brasileira 2008 acrílica e crayon s/ compensado 113 x 69 cm

Mulheres Verticais de Baravelli

Madrugada. Ainda está escuro. 5 da manhã. Vejo o e-mail de Ana Claudia Roso da AC galeria. As imagens de Mulheres Verticais de Baravelli recortadas contra o fundo branco saltam na tela. Vejo demoradamente cada uma. As de Gabriela me chamam à atenção. Baravelli consegue captar nessas imagens momentâneas o eterno feminino. A entrevista com o artista publicada no convite me fez pensar em Ambroise Vollard, o marchand. Na sua galeria da Rua Laffite em Paris. Não se limitava a expor pinturas, esculturas. Imprimia gravuras dos artistas. Publicava textos de críticos influentes. Isso em 1901. Divulgava os artistas como fez com Picasso no início de carreira. E com muitos outros. Foi o precursor do press release.
A entrevista é esclarecedora. Informativa. Didática. Com a autorização de Baravelli e Ana Claudia a reproduzimos abaixo. Espero que curtam tanto quanto curti. Amanheceu. Bom dia. Carlos von Schmidt

 Baravelli  Gabriela 1  2008  acrílica, crayon e esmalte s/ compensado e eucatex 220 x 58 cm
Baravelli Gabriela 1 2008 acrílica, crayon e esmalte s/ compensado e eucatex 220 x 58 cm


Entrevista com Luiz Paulo Baravelli

Por que ou como, você começou a pintar? Qual a sua historia?
Dei muitas aulas para estudantes que estavam começando a pintar e vi um fenômeno que deve ter acontecido comigo: como existem pessoas que tem um "ouvido musical" nato, há pessoas que tem um "sentido visual" nato. Um “acidente” genético, talvez. Isso nã vai fazer dessa pessoa um artista, automaticamente, mas vai colocá-la no caminho. Minha história é simplesmente ter nascido com isso e ter tido a vontade e a sorte de desenvolver esta condição.

Você fez FAU, no que a arquitetura te influenciou?
Em dois aspectos: mesmo que um trabalho meu não esteja representando casas, construções etc., o processo é arquitetônico, ou seja: partes discretas entre si, muito diferentes às vezes, e que se “encaixam” e trabalham juntas. E o outro aspecto, principalmente nos recortes, é que eles são envoltórios abstratos para conteúdos figurativos, o que poderia ser uma boa definição de arquitetura: caixas(abstrato) para gente(figurativo).

Você se definiria ou encaixaria em algum estilo? Algum ismo...
Não, isso ficou impossível hoje - não ha mais estilos ou ismos. Como, quando e porque isso aconteceu é um assunto complexo, para os historiadores da arte.

Como foi participar das Bienais? O que você apresentou?
Nada, especialmente. São (bons) acidentes de percurso. Nunca me ocorreu pautar o trabalho por exposições. Lembro uma frase da Gertrude Stein: "eventos não devem ser causa de emoções". E apresentei o que estava em curso no estúdio, naquele momento.

 Baravelli  Gabriela 2  2008  acrílica e crayon s/ compensado 220 x 67,5 cm
Baravelli Gabriela 2 2008 acrílica e crayon s/ compensado 220 x 67,5 cm

Como você vê a Bienal hoje?
Evaporando lentamente, há uns trinta anos. Acabou sua função de "trazer novidades". Não há mais novidades e, se houvessem, viriam por outro canal.

A Escola Brasil, como foi participar? O que você mais gostou? Sente saudades?
Foi bom por me proporcionar muita clareza quanto ao processo de aprender, ensinar e transmitir arte.A escola funcionava por um princípio não piramidal, não cumulativo, ou seja, não acadêmico, como são as escolas de arte ate hoje. Não sinto exatamente saudades, no sentido de querer voltar, mas tenho a lembrança de um tempo útil e
feliz.

Como você enxerga a evolução do seu trabalho?
Alguns artistas têm um processo linear de evolução. Mondrian, ou Arcângelo Ianelli, por exemplo. Eles saem de A e chegam a B, em trajetórias que duram décadas. Meu processo, desde o inicio sempre foi criar uma base extensa de possibilidades, formatos, técnicas, assuntos; trabalhar em grupos de obras que se seguem sem uma coerência estrita. Constelações, como já foram chamadas, que se expandem com o tempo. Por exemplo, comecei na metade da década de 60 uma série que se chama "Chácaras e Quintais" e à qual venho acrescentando trabalhos desde então. Em vez de uma linha, talvez a imagem que caiba e uma lenta explosão nebular.

Qual sua opinião a respeito do cenário artístico brasileiro atual?
Um nevoeiro. A extrema liberdade que desfrutamos é boa, com certeza, mas nos coloca muito distantes uns dos outros e não há um "cenário', não há “uma arte” e não há um “Brasil”. Existem indivíduos soltos no espaço.

Baravelli  Gabriela 3  2008  acrílica e esmalte s/ compensado 220 x 81,5 cm
Baravelli Gabriela 3 2008 acrílica e esmalte s/ compensado 220 x 81,5 cm

Desde quando você usa modelos vivos?
Desde que comecei (fim da década de 50 ainda), fazendo aulas eventuais na FAAP. Começou como exercícios de forma e evoluiu para uma espécie de reflexão metafísica visual, se e que isto existe.

Adorei e agradeço as obras que você fez especialmente para a AC Galeria de Arte. O que mais te estimulou para este projeto?
Justamente transformar as modelos em mulheres e pensar (com os olhos) sobre elas e suas circunstâncias hoje. Há imagens de várias modelos na exposição, e os trabalhos são, às vezes, a partir de uma em especial e, às vezes, compostos por aspectos de mais de uma.

Horizontais são fatos, Verticais são historias...
O mundo, do ponto de vista de um indivíduo, é um plano cheio de coisas físicas e concretas: casas e ruas, terra e mar, maquinas e cidades. Cada um de nós é uma frágil torre provisória, feita de átomos de segunda mão e que se mantém de pé por um sonho, uma pequena vertical existindo no tempo, uma historia.

 Baravelli  Estudo de um Anjo Adulto   2008   acrílica s/ mdf, 99,5 x 75 cm
Baravelli Estudo de um Anjo Adulto 2008 acrílica s/ mdf, 99,5 x 75 cm

Como foi rever seus desenhos e escolher alguns para mostrar junto das "Mulheres Verticais"?
Isso foi muito bom. Abri todas as pastas de desenhos que tenho guardados, desde os primeiros (há um estudo de 1964, 44 anos atrás!) e procurei por este assunto das Mulheres Verticais. Como na pergunta da evolução, sempre existiram Mulheres Verticais e gostei muito de rever esta constelação em particular. Na minha visão ela e bem representativa. Lembro de outra anedota, do Einsestein, que, ao ouvir alguém dizer que seu filme era muito comprido e que deveria cortá-lo, respondeu que cortaria sim, mas ao comprido.

Você já tem algum novo projeto em mente?
Aproveitar que a exposição saiu do estúdio, fazer uma faxina, sentar na poltrona favorita e deixar que um mínimo sinal interno me puxe em direção a outra constelação.
Sempre esperando a sua visita no nosso espaço.


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