 Equilíbrio
Madeira
1970
Amorável surreal geométricaA primeira vez que ouvi falar de Margarita Farré, foi nos anos 70. Amigo entusiasmado teceu intermináveis elogios à jovem catalã de Barcelona. Ela vivia em São Paulo desde 1957. No final da década de 60, começou a esculpir.
“Você precisa ver as esculturas que ela está fazendo. No momento não tem nada igual.” Não vi as esculturas e não conheci Margarita Farré.
Anos depois, suas esculturas começaram a aparecer em galerias que se dedicavam à tridimensionalidade. Em exposições por esse Brasil afora e no exterior. Suas esculturas de mulheres, de casais, falavam do eterno feminino, do amor, da solidão, do desejo. Traziam visíveis a sua marca. Era facilmente identificável.
 Constelação
Pedra bruta com elementos em aço inox e concreto
1974
As esculturas que não vi nos anos 70 e outras, feitas a partir de então, vi há dois anos ao visitar o ateliê de Margarita Farré no Alto de Pinheiros. Meu amigo tinha razão. Se eram originais naquela década, continuavam a ser hoje.
Depois da visita, escrevi um texto, À sombra da Sagrada Família, para uma mostra de Margarita Farré. Referia-me à catedral de Gaudi em Barcelona. Menina, Margarita Farré brincava no canteiro de obras da catedral entre as esculturas do mestre. Disse no texto que ninguém escapa impune a tal experiência. Pode-se ver nas suas primeiras esculturas, na escolha dos materiais, pedra, aço, concreto, na liberdade da escolha, na idéia básica, toque gaudinesco. Tenho certeza de que Margarita Farré não se deu conta de que, em seu inconsciente, Gaudi estava ali. No texto, falo de Fídias, de Gaudi e de Camille Claudel para falar de Margarita Farré.
 Tubos Amarelos
Tubos de ferro pintado com tinta automotiva
1975
Um ano depois fui a Brasília para falar das esculturas. À sombra da Sagrada Família foi fundamental na palestra. Na ocasião mostrei, através de slides, as relações que a obra de Margarita Farré têm com a iconografia moderna e contemporânea.
Agora, com esta exposição do Museu Brasileiro da Escultura, posso ressaltar o percurso que a artista desenvolveu a partir de 1969 aos nossos dias.
 Cores 88
Pedra e tinta a óleo – Base de ferro
1988
A leitura que proponho foge à que tem caracterizado as exposições anteriores e revela uma Margarita Farré muito além dos limites traçados por essas mostras.
Expostas pela primeira vez, esculturas como Equilíbrio, de 1970, Constelação, de 1974, Tubos Amarelos, de 1980, Cores, de 1988, Desencontro, de 1990, Troncos e O Grito, de 1992, O Pouso e Ascensão, de 1997, Pássaros, de 1998, Circunvolução, de 2000, mostram para nós um universo desconhecido, mas visitado freqüentemente por Margarita Farré.
A maioria dessas esculturas foi criada com a espontaneidade e a liberdade com que Picasso criou Cabeça de Touro em 1934, soldando um selim de bicicleta a um guidão encontrado entre sucatas.
 O Tronco
Madeira, cimento e ferro
1992
Acredito que Dali, catalão de Figueras, que também gostava de assembler, juntar objetos os mais heterodoxos, estranhos e contraditórios, como copo de leite quente, sapato, fotografia erótica, torrões de açúcar, lagostas, telefones e, através dessa algarávica miscelânea, dar seu recado, encontraria nas pedras brutas, nas madeiras usadas de construção, nos dormentes de estrada de ferro, nos tubos, ferros, nos cipós de Margarita Farré, conotações surrealistas insuspeitadas.
 O Pouso
Aço pintado com tinta automotiva
1997
Não sei se foi em um texto sobre Torres Garcia que li pela primeira vez a menção à geometria poética. A designação é perfeita para identificar algumas peças como Desencontro, O Pouso, Ascensão e Pássaros.
Depois desta exposição, abre-se para Margarita Farré um macrocosmo de possibilidades ilimitadas. Ao lado de suas amoráveis mulheres de bronze, alumínio e mármore, formas inusitadas e materiais não convencionais esperam a hora para entrar em cena trabalhados por Margarita Farré.
É quando lâminas de alumínio se transformam em asas e pássaros metálicos voam ao céu. Nesta mostra há um a espera do momento certo para alçar vôo. É o momento mágico. É a chaminé de Gaudi da Casa Milà que se transforma em guerreiro medieval, a amurada do Parque Güell que serpenteia pelo parque afora.
 Dolce Vita
Alumínio pintado com tinta automotiva
2001
Cada vez mais acredito que a função precípua da arte é despertar nossa imaginação. Margarita Farré, com suas mulheres e seus casais, nos faz pensar em nossos sentimentos, emoções, desejos. Seus outros vôos criativos nos levam para outra direção abrindo as portas da percepção.
Quanto maior a abertura maior a fruição, maior o encontro com uma área de luz intensa, rara, difícil de se encontrar.
Em Margarita Farré, é fácil.
São Paulo 29 de março de 2004
Carlos von Schmidt
Curador e crítico de arte
 Margarita Farré
 Meditação
Bronze com pátina azul
2003
 Pausa para Sonhar
Argila
2004
A exposição Margarita Farré 35 anos de escultura 1969 a 2004 estará aberta ao público de 5 a 30 de maio, no Museu Brasileiro da Escultura Marilisa Rathasam MuBE de São Paulo.
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