 Capa do romance Answered Prayers 1987
Capote em leilão
Famosos, célebres e ricos, enquanto Warhol se dava ao luxo de fazer cinema underground, bancar e editar a revista Interview, Capote borboleteava de coquetel em coquetel, de festa em festa, de jantar a jantar, exibindo-se, voando e batendo as asas, vivendo um personagem, verdadeira caricatura de si mesmo.
O veneno da cobra Continuava ferino, sarcástico, mordaz, sempre pronto a alfinetar alguém, mas fazer o que sabia fazer, escrever, não escrevia. Falar, falava, muito. Nos coquetéis, no jantares, nas entrevistas. Cada vez que abria a boca para falar de alguém ou responder a uma pergunta, destilava veneno por todos os lados. Se mordesse a língua morreria envenenado.
Sobre o vocalista dos Rolling Stones disse: “Mick Jagger se movimenta como uma paródia entre uma majorette girl e Fred Astair”. As majorettes são aquelas moças peitudas, pernas à mostra, que fazem evoluções nos jogos de baseball. Evoluem em frente das fanfarras escolares fazendo malabarismos ao som de marchas de John Philip Sousa.
Capote não perdoava, não poupava ninguém. Não tinha papas na língua. Compensava a baixa estatura com a língua afiada. Quando lhe perguntaram o que achava do livro On the Road de Jack Kerouac, respondeu sem hesitar: “That’s not writing, that’s is typing”, ”Aquilo não é escrever, aquilo é bater à maquina”.  Marilyn Monroe e Truman Capote Às vezes não era tão sutil, fino, delicado. Engrossava como na entrevista com Norman Mailer e Gore Vidal na televisão. Deixou-os falar sobre literatura, livros, estilo. Arrematou dizendo: “Tudo isso que vocês estão dizendo pode ser muito interessante, mas a verdade é que eu escrevi uma obra prima, vocês não!!!”. Referia-se a In Cold Blood. Mais não falou. Nem lhe perguntaram.
Sobre o papa da pop arte comentou assim como quem não quer nada: “Warhol é uma esfinge sem enigma”. Irônico. Cáustico. Arrasador. Fazia jus ao apelido tiny terror, terrorsinho. Indisciplinado e dispersivo Dos dois, Warhol foi o mais sábio. Não se deixou deslumbrar nem se deixou seduzir pelos ricos e famosos. Nem embarcou em uma viagem sem volta no álcool e nas drogas. Capote não resistiu. Mergulhou de cabeça. Não teve forças para emergir. Afundou cada vez mais. Escrevia cada vez menos.
Pode-se dizer que In Cold Blood foi seu canto do cisne. Prematuro. De Capote esperava-se muito mais.
A expectativa do anunciado Answered Prayers, Súplicas Atendidas, iniciado por Capote em 1966 e nunca terminado, era muito grande. Isso por que ele considerava Súplicas Atendidas, o grande romance americano não ficcional, tão importante quanto A La Recherche du Temps Perdu, Em Busca do Tempo Perdido de Proust. Escreveu alguns capítulos. Não foi mais além. Não passou disso. Tinha por Flaubert a maior admiração, amava Madame Bovary, mas não tinha a disciplina do francês. Escrever exige.
O título instigante, brilhante, Súplicas Atendidas, Capote foi buscar em uma frase de Santa Tereza D’Ávila, “As súplicas respondidas causam mais lágrimas do que as que não o são”.
Não poderia imaginar que as suas Súplicas Atendidas o fariam chorar lágrimas amargas, de sangue. Chorou.  Truman Capote Arrasado, melancólico e triste podia repetir Rimbaud em Une Saison en Enfer dizendo, “Jadis, si je me souviens bien, ma vie etait un festin ou s’ouvraient tous les coeurs, ou tous les vins coulaient.”. Outrora, lembro-me bem, minha vida era um festim onde todos os corações se abriam, onde todos os vinhos jorravam”.
Festins não havia mais. Não o convidavam. Nem corações abertos. As pessoas o evitavam. Não havia mais com quem compartilhar o vinho. Indiscrição e fofoca O escândalo provocado pela publicação de quatro capítulos de Súplicas na revista Esquire, Mojave e La Côte Basque-1965, em 1975 e Unspoiled Monsters e Kate McCloud, em 1976, foi crucial na vida de Capote.
Nesses capítulos, Capote expôs a vida íntima dos amigos do jet set invadindo-lhes a alcova, os boudoirs, a privacidade, falando de suas aventuras conjugais.
Revelou quem transava com quem, quem traia quem, quem era e quem não era bom de cama. Preferências sexuais, fixações, fantasias, taras, manias, identificando-os ou não, mas sempre deixando indícios que permitiam reconhecê-los.
O produtor de televisão e seu protetor, Bill Paley e sua mulher Babe, na época da publicação paciente terminal com câncer, foram expostos sem a menor discrição ou consideração. Contou como os seduziu emocionalmente e sexualmente. Baixaria da grossa. Acabou com Brando Os Paley fecharam as portas para Capote. Com elas, centenas de outras portas também se fecharam. Payle na época não disse, como Marlon Brando em 1957, depois de ler The Duke in His Domain, O Duque em Seu Domínio, artigo publicado na seção Profiles, Perfis, da New Yorker: “Vou matar esse cara!!!”. Paley, quase vinte anos depois, deve ter pensado, que pena que não matou.
No longo texto sobre Brando na New Yorker, Capote descreve o encontro que teve com o astro em Kyoto, no Miyako hotel. Descreve com minúcia o apartamento oriental de Brando.
O Miyako, considerado o melhor e mais luxuoso hotel de Kyoto é um dos melhores do Japão e do mundo. Tem apartamentos à moda ocidental e à oriental. Esses dão de 10 a 0 nos outros. Em junho de 90 hospedei-me em um deles depois de passar um dia e uma noite em um templo Zen. O contraste foi brutal.
Capote ao descrever o Miyako o fez com propriedade. O meu apartamento era igual ao de Brando. Só não falou do futon sobre o tatame. Nem dos chinelos em couro preto com o logo do Miyako. As luminárias de papel.  Sayonara Brando e Miiko Taka 1957 Marlon estava em Kyoto para a filmagem de Sayonara. O diretor era o veterano Joshua Logan. O romance de James Michener foi a base para o roteiro. Brando convidou Capote para jantar no Miyako. Não no restaurante, no apartamento. O jantar estava marcado para as 19 horas. Capote chegou atrasado 20 minutos. O encontro entre Brando e Capote durou das 19h20 às 2h da manhã do dia seguinte. Beberam vodca antes e saquê durante o jantar ocidental. Ignoraram os sushis, sashimis, sukiakis e tempuras.
Brando desapertou o cinto e atacou com voracidade filés pantagruélicos, batatas fritas, três tipos de vegetais, spaghetti, salada, pão, manteiga, queijo, crakers e torta de maçã com sorvete.
Servidos por jovens garçonetes japonesas, sorridentes e solicitas em seus belos quimonos. Sibilino, Capote informa que Brando estava de dieta. Logan havia lhe pedido para perder cinco quilos.
As garçonetes sorrindo e rindo tratavam Marlon com intimidade chamando-o de Maron. O ele em japonês não existe. Os íntimos o chamavam de Mar. Tudo isso e muito mais Capote contou no perfil que traçou na New Yorker. Morreu pela boca Nessas quase sete horas, Capote deixou Brando falar. Perguntou pouco. Uma das perguntas foi como quebrou o nariz. Brando contou. Com detalhes. Outra, qual era seu ator predileto. Spencer Tracy, respondeu.
Reticente no início, aos poucos se abriu. Foi aí que se perdeu. Esqueceu que Capote estava ali para entrevistá-lo. Viera de New York para Kyoto para fazê-lo. Estava no Miyako, jantando com Brando, a serviço. Não tomava nota, não gravava, mas memorizava palavra por palavra que Marlon falava. E Marlon falou muito.
Não poderia imaginar que tudo que falou, Capote gravou mentalmente. Tudo que disse, Capote publicou. A mediocridade de Hollywood, a insistência de Tennessee Williams em fazê-lo participar de uma peça com Anna Magnani, sua relação com Logan, com a mãe, sua incapacidade em ampará-la, socorrê-la quando precisou, a impossibilidade de amar alguém. Falou pelos cotovelos. Capote limitou-se a ouvir. Naquela mesma noite passou para o papel tudo que ouviu sem tirar nem por. O rei estava nu De volta a Manhattan, Capote, como se diz na linguagem das cavalariças dos quartéis de cavalaria, lavou a égua. Além de descrever cada reação facial de Brando, piscar de olhos, jeito de mexer os lábios, expressões, gestos, maneirismos, revelou através das declarações do superastro que o rei estava nu.
Peladinho em Seu Domínio. O S maiúsculo de Seu não é erro de revisão. Tem razão de ser. É mais uma sutileza maldosa de Capote. Como se estivesse falando de Deus. E tudo que se refere a Ele, se escreve com maiúscula. Irônico, cruel, ferino até no título. Tirado de uma frase de Brando quando falou do seu jeito de conquistar as pessoas e como elas o reverenciavam como se ele fosse um duque em seu domínio.
Dezoito anos depois em Answered Prayers, Capote fez com vários amigos e conhecidos do jet set, do High Society, colunáveis, VIPs, em suma, ricos e famosos, o que fez com Brando. Não deixou pedra sobre pedra. Arrasou todos. Só que dessa vez quem morreu pela boca foi ele.  The Party of the Century Deborah Davis 2006 De repente, o Capote que em 1966 reuniu no Plaza Hotel de New York, no White & Black Ball, no Baile Branco e Preto, 500 seletos convidados que compareceram mascarados atendendo ao seu convite impresso em sofisticado papel branco com margens amarela e laranja, que dizia: “Mr. Truman Capote request the pleasure of your company at the Black and White Dance”... estava só. Em um mato sem cachorro, falando sozinho. Da noite para o dia, virou persona non grata. Mal visto. Isolado. Evitado. Barrado. Foi o começo do fim.
O ostracismo que o jet set lhe impôs, doeu-lhe mais do que as críticas aos seus textos. Pesou mais. Significou mais. Para um exibicionista nato, que desfilava pelos salões do grand monde como se fosse uma escultura. Um bronze de si mesmo, brilhando ao sol, à luz dos refletores, não poderia haver maior castigo. Nada pior. Zeus não poderia ser mais cruel. O Refugio foi álcool, as drogas.
Sobreviveu nove anos. Bem menos que sua mãe. Dona Nina. Bebia desde os anos 20. Se matou em janeiro de 1954. Tomou uma dose fatal de Seconal. Tinha 46 anos. Capote a imitou? Matou-se?
Talvez! Afirmar ninguém pode. Porém, pode-se dizer com certeza que Capote não era homem de errar na dosagem de suas bolinhas. Erro não houve. A risada final Além disso, no dia anterior Capote entregou a Joanne a chave de um cofre que estaria em uma cidade americana ou do exterior. Não disse onde. Era preciso localizá-lo. Disse que nele estava Answered Prayer terminado e outros textos, inéditos e originais. O cofre foi encontrado. Não havia texto nenhum. Foi a piada final de Capote O simbolismo do gesto foi claro. Freud não precisa explicar.  Truman Capote Roger Higgins 1959 Joanne está hoje com 75 anos, aparenta bem menos. Porque decidiu leiloar os bens de Capote não precisa e nem tem porque explicar. Afinal, guardou-os por 22 anos. Não precisava fazê-lo. Fez por que quis. Portanto...
Joanne está muito bem de vida. Continua a viver no casarão de Bel Air. Fazer dinheiro com o leilão, faturar, não foi seu objetivo. Disse que vai doar a renda do leilão para entidades que cuidam de animais. Adora bichos. O mundo privado de Truman Capote A Bonhams & Butterfields de New York, a casa de leilões que leiloou dia 9 de novembro, a partir das 13 horas, parte do espólio de Capote, catalogou 337 lotes.
O leilão, denominado The Private World of Truman Capote, O Mundo Privado de Truman Capote, a rigor, de privado, de particular, de íntimo, nada teve.
Nada se mostrou de sua alcova, de seus lençóis. Dos amantes fixos e ocasionais. Nem das amigas, belas e chiques do Café Society. As “swans”, cisnes, como as chamava.
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Não fizeram com Capote o que ele fazia com prazer e volúpia. Vasculhar e bisbilhotar a vida de ricos e famosos a partir de seus iates, carros, cavalos, mansões, jóias, mulheres e milhões de dólares, de libras.
Foi um leilão anódino. Igual aos de muitos espólios de americanos ricos. A biblioteca de Capote não tinha um livro raro, uma edição especial. Obras de arte havia quatro. Uma lito e três serigrafias. Uma lito de Chagall, de 1967, uma serigrafia de Robert Indiana, de 1968. Outra do fotografo de moda, Milton Green, retrato de Judy Garland e uma fotoserigrafia de Gary Reams, retrato de Capote. Só!  Gary Reams Truman Capote Foto Serigrafia Nenhum peso pesado das artes. Nenhum Warhol, Nenhum Dalí. Dois artistas que também adoravam freqüentar os ricos e famosos. Ambos arroz de festa. Tão exibicionistas, frívolos e afetados quanto Capote.
Os três se conheciam. Nos anos 70 depois do ostracismo imposto pelo jet set, Warhol tomou Capote sob sua proteção. Quando Capote teve de deixar a revista Rolling Stone, depois de briga feia com Mick Jagger, dos Rolling Stones, Warhol o convidou para escrever para a Interview. O relacionamento entre os dois manteve-se até a morte de Capote. Se quisesse Capote poderia ter uma obra de cada um. Não tinha. Seu interesse pelas artes plásticas era mínimo. Suas gravuras deixam isso bem claro.
Dos 337 lotes que foram a leilão, o livro sobre Marlon Brando, The Duke in His Domain, O Duque em Seu Domínio. O exemplar da revista Esquire de novembro de 1975, com chamada na capa, La Côte Basque -1965 At Last: Truman Capote’s New Novel Answered Prayers - A First Look La Cote Basque – 1965. Finalmente: Novo Romance de Truman Capote Answered Prayers Prévia, uma foto de Capote tirada por Richard Avedon em 1967 e outra, uma polaroide tirada por Warhol, me chamaram à atenção. Nada mais.  Truman Capote Foto de Richard Avedon 1967 - detalhe Os cristais, os Baccarat, os Courrège, os Cardin, os Dunhill os Cecconi, os Miller, não me disseram nada. Apenas revelaram um Capote preocupado com grifes, ostentação e status.
Os leilões são terríveis. Mostram através dos objetos do falecido, gostos, tendências, fraquezas, segredos, nunca suspeitados. Entre os objetos leiloados havia uma cafeteira de prata do Plaza Hotel. Cinzeiros de bares e hotéis. Surrupiados. Brincando dançou Ao ver a foto do smoking que Capote usou no célebre baile do Hotel Plaza, em 1966, pensei no Capote adolescente, baixinho, 1 metro e 59 centímetros, envolto em uma capa preta de opera, os longos cabelos loiros caindo pelos ombros, a gravata borboleta colorida, andando pelos corredores da The New Yorker.
No jovem Capote, com dezessete anos, indo ao trabalho fantasiado e maquiado para chamar à atenção dos editores, dos redatores da revista, do pessoal do departamento de arte.
Do Capote que, de 1941 a 1943, primeiro como office-boy no departamento de contabilidade, depois no de arte, como clipping-boy, fez da The New Yorker palco em que atuou como se astro fosse.  Truman Capote Foto de Cartier Bresson 1947 Roupas coloridas, cabelo pintado, gestos amplos, mímicas, faziam parte da encenação diária. Gostava de imitar as pessoas. Perdeu o emprego por isso. Por imitar o poeta Robert Frost, lenda viva, respeitadíssimo na The New Yorker. A revista foi o primeiro e último emprego de Capote. A demissão o deixou livre para sempre. Para escrever.
Entre esse Capote travestido de dandy e de bufão, que logo mais escreveria Other Voices, Other Rooms e o que não conseguiu escrever Answered Prayers, a distância é enorme, gigantesca.
Isso, The Private World Of Truman Capote, mostrou. Só não viu quem não quis.
São Paulo, 15 de novembro de 2006 4H25
Carlos von Schmidt
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