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Cena de Laranja Mecânica
Cena de Laranja Mecânica


Kubrick: obsessão e minúcia

Para muitos um gênio, para outros um chato, Stanley Kubrick foi aquele diretor que usou três mil tortas de creme para fazer uma cena de pastelão em Doutor Fantástico, durante cinco dias de filmagem.

Na hora da edição, eliminou a cena por achar que o pastelão poderia transformar sua "nightmare comedy", "comédia-pesadelo", em uma farsa engraçada.

Fotos dessa filmagem encontram-se na exposição sobre o universo kubrickiano, aberta em 31 de março nos Deutsches Filmmuseum e Deutches Architektur Museum, com encerramento em 4 de julho, em Frankfurt.

A exposição apresenta parte da memorabília e parafernália reunida por Kubrick referente aos filmes que dirigiu, produziu, escreveu.



Stanley Kubrick
Stanley Kubrick


Roteiros, anotações, cronogramas, figurinos, cartazes, fotos, story boards, equipamento cinematográfico, arquivos, estão visíveis pela primeira vez. O tabuleiro de xadrez em que Kubrick jogava entre as filmagens também está exposto. Quando jovem, em New York, Kubrick jogava a dinheiro na Washington Square. Ganhava sempre.

Kubrick morreu em 7 de março de 1999, na mesma semana em que apresentou Eyes Wide Shut, De Olhos Bem Fechados, para diretores da Warner Brothers e para Tom Cruise e Nicole Kidman.

Morreu dormindo, vítima de um colapso cardíaco. Tinha 70 anos.



Cena de Lolita
Cena de Lolita


Lançado meses depois, De Olhos Bem Fechados não se transformou no sucesso esperado. Com exceção da cena da abertura em que Nicole Kidman é filmada nua de costas, tudo mais é muito óbvio. De Olhos bem Fechados a meu ver não tem o toque de Kubrick. Não se deve esquecer que o roteiro foi escrito a quatro mãos. Frederick Raphael fez dupla com Kubrick. Isso conta. E muito.

Ele que sempre filmou com olhos super abertos, dessa vez fez jus ao título.



Tom Cruise e Nicole Kidman em De Olhos Bem Fechados
Tom Cruise e Nicole Kidman
em De Olhos Bem Fechados


Perfeccionista, Kubrick era obcecado pela pesquisa. O material que reuniu sobre Napoleão, filme que não chegou a realizar, dá idéia do que foram os dois anos em que o cineasta mergulhou no universo napoleônico.

Kubrick organizou uma biblioteca sobre o militar, suas guerras, sua vida política e visão do mundo. Dos imperadores franceses, foi o único que se coroou com suas próprias mãos.

Arquivos sobre as pessoas que o cercaram, hábitos, manias, preferências, idiossincrasias, amores, desamores e vida sexual foram passados no pente fino.



Stanley Kubrick em 2001
Stanley Kubrick em 2001


Era intenção de Kubrick filmar Napoleão à luz de velas, em estúdio. Roteiro minucioso, detalhando em minutos, segundos, cada tomada, a hora do dia ou da noite, a estação do ano em que a cena se passava, o local da filmagem, a cidade, o país, descritos com os mínimos detalhes, cenários a partir de pinturas e gravuras da época, objetos originais e outros copiados à perfeição, fizeram do projeto do filme orçado em milhões de dólares, inexeqüível.

Farto material sobre 2001 e Laranja Mecânica revela que muito antes do projeto Napoleão, desenvolvido no final da década de 60 e início da 70, Kubrick não deixava absolutamente nada ao acaso.

Um modelo funcional da centrífuga de 2001 e uma réplica em tamanho natural da War Room, da Sala de Guerra, de Doutor Fantástico fazem parte do inédito material exposto em conjunto com instalações de vídeo, áudio e projeção de filmes.



Stanley Kubrick
Stanley Kubrick


Entre os objetos expostos estão o sofá vermelho em forma de boca, inspirado no de Salvador Dali, que se inspirou em Mae West, usado em Lolita. A porta do banheiro de gravidade zero utilizada em 2001. A mesa em forma de mulher nua de Laranja Mecânica, anotações e rascunhos de A.I. - Inteligência Artificial, concluído por Steven Spielberg.

Para os fãs de Kubrick, um prato cheio. Ou melhor, um banquete.



Kubrick em foto de sua mulher Christiane
Kubrick em foto de sua mulher Christiane


Frases de Kubrick sobre seus filmes, como 2001, “é um filme sobre a procura de Deus” e sobre Napoleão, “Ele me fascina. Ele era um destes raros homens que mudam a história e influenciam o destino de sua era e das gerações seguintes”, mostram que, dos cineastas contemporâneos, Kubrick era dos poucos com um Q.I. fora do comum. O resto é o resto.


São Paulo, 5 de maio de 2004 18h27
Carlos von Schmidt




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