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O gol do ministro

Durante um bom tempo, o museu Guggenheim ocupou expressivo espaço nas páginas de arte de vários jornais paulistanos e cariocas. Era Guggenheim pra cá, Guggenheim pra lá.

O museu nova-iorquino, que não é o melhor nem o mais importante da cidade, parecia a salvação da lavoura artística e cultura brasileira. O Guggenheim de Bilbao era esfregado em nossa cara como exemplo único. Frank O. Gehry, como "o arquiteto".

Na época, diretores do Guggenheim, arrogantes e agressivos, portavam-se como colonizadores falando ao gentio. Comendo e bebendo à farta nos lautos jantares oferecidos, agiam como se estivessem fazendo um imenso favor ao Brasil em ceder o nome Guggenheim pela bagatela de vinte milhões de dólares.

Considerando-se o dólar a R$ 4,00 chega-se à enormidade de 80 milhões de reais. Dinheiro suficiente para se construir alguns museus.

Caberia a nós, índios, além de pagar pela "famosa" grife museológica, arcar com todas as despesas da construção do museu.

Refestelados em sua magnitude, os senhores do Guggenheim analisariam a melhor oferta e decidiriam se o Guggenheim seria instalado em São Paulo ou no Rio. Cogitou-se Salvador, mas a Bahia foi logo descartada.

Fazia parte dos planos dos diretores do Guggenheim que, além de pagar a conta da festa, do lauto banquete, cabia aos nativos aceitar o cardápio sem reclamar. Isso significava acatar as decisões do Guggenheim em relação à arquitetura do prédio, escolha do arquiteto, filosofia e mecânica cultural e artística.

Resumindo, não passávamos de números, estatísticas, que representavam X dólares. Não tínhamos um passado artístico, cultural. Nossa arquitetura não existia. Ibirapuera, Masp, Brasília não passavam de miragem.

Para um país que tem Oscar Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha, que teve Lina Bardi, mestres na construção de museus, as exigências do Guggenheim eram, no mínimo, ofensivas.

Mas, não há como um dia depois do outro. De repente, há coisa de três, quatro meses, começaram rumores de que as finanças do Guggenheim não iam muito bem. Em pouco tempo o que era apenas boato virou realidade.

Dispensa de funcionários, cancelamento do milionário projeto de construção do Guggenheim em New York, fechamento do Guggenheim em Las Vegas, medidas de contenção em todas as unidades, revelaram o calcanhar de Aquiles do gigante que nos olhava como se fôssemos pigmeus ignorantes.

Há dias li na Internet carta que artistas, arquitetos e intelectuais, do Rio, enviaram a Lula, alertando-o para a intenção de César Maia, prefeito do Rio, de envolver a União na construção de um Museu Guggenheim nas docas cariocas.

Nada mais absurdo. Enquanto museus do Rio e de todo Brasil lutam para sobreviver a duras penas, o prefeito carioca pretende construir um Guggenheim milionário. É a hora de perguntar por que? Espero que não me respondam falando em turismo. É simplesmente ridículo.

Não assinei a carta pois não chegou a mim. Assinaria com prazer. Já se deu muito pau-brasil em troca de miçangas. Chega!!!

Um museu de um país que pode gastar bilhões de dólares em uma guerra sem sentido, forjada, não precisa de nossos suados reais. Nós também não precisamos do Guggenheim.

Estranhei que o assunto Guggenheim, que mereceu tanto espaço antes, não tenha recebido agora, quando o ministro da cultura, Gilberto Gil, sem fazer média, sem enrolar, sem jogo político, nem de cintura, declarou em alto e bom som:

“A tendência do ministério é desaprovar o projeto. Vinte milhões de dólares só pelo nome é muito caro. A relação custo-benefício é complicada, difícil.”

Espero confiante que o ministério desaprove.

Seria bom que o ministro também desse uma boa olhada nas verbas destinadas à Fundação Bienal de São Paulo, useira e vezeira em beneficiar artistas do exterior, em detrimento da prata da casa.


Carlos von Schmidt
4.fev.2003, 22 horas




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