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Fukuda  Sem Título 21 ast 100x100
Fukuda Sem Título 21 ast 100x100 cm

Fukuda


Conheço Kenji Fukuda há 20 anos. Por ocasião da abertura do Espaço Fukuda, em uma galeria da Rua Augusta em 1988 escrevi um texto em que falei da chegada dos primeiros japoneses ao Brasil. Do Kasato-Maru aportando em Santos em 1908. Da subida da serra. Da chegada a São Paulo. Da ida para o interior. Londrina, Lins. Para as fazendas.

Vinte anos depois, hoje 25 de abril de 2008, reli esse texto. Está atualíssimo. Tudo que escrevi sobre o passado, tem a ver com o presente. Com os cem anos da imigração japonesa. Não vou publicá-lo na íntegra. Cito apenas alguns trechos que acho pertinente:

 Fukuda  Sem Título 3 ast 180X160
Fukuda Sem Título 3 ast 180X160 cm

Quando o Kasato-Maru atracou no porto de Santos, em São Paulo, em 18 de junho de 1908, com a primeira leva de imigrantes japoneses, não trazia apenas mão-de-obra camponesa. Entre os imigrantes havia os que sabiam cantar, tocar, dançar, pintar. O líder do grupo, Shuhei Uetsuka, era poeta, haicaísta, "haijin". Emocionado e comovido com a visão da nova terra, com a Serra do Mar, antes de desembarcar escreveu um poema: "Karetaki o/aoguite tsukinu/iminsen". O haikai evoca o navio de imigrantes, uma cascata no alto da serra.

Aproximadamente vinte e dois anos depois, em 30 de maio de 1930, um outro imigrante nipônico, Tamotsu Fukuda chegou ao mesmo porto. Não era um "haijin", mas tinha alma e olhos de artista. Olhou o porto, o mar, a serra, as árvores. Pintou-as mentalmente. De Santos seguiu para São Paulo. Ao subir a serra, o verde da mata, o vermelho, o amarelo, o roxo das flores outonais, manchas coloridas chamaram sua atenção.

 Fukuda  Sem Título 15 ast 120X170
Fukuda Sem Título 15 ast 120X170 cm

De São Paulo seguiu para Lins. Na fazenda Santa Gertrudes, zona cafeeira do interior do Estado, as imagens, as manchas de cor mentalizadas aos poucos foram se transformando em pintura. Primeiro figurativa, depois abstrata.

Às vezes, enquanto pintava, o filho Kenji, nascido no Brasil, observava. Até que um dia Tamotsu deu ao menino uma tela, tintas e pincéis. Mostrou-lhe também como segurar o pincel, trabalhar a tela, mexer com os pigmentos, misturar as cores. No começo o menino perguntava muito. À medida que o tempo passava, as perguntas foram diminuindo. Então, quem queria saber o que o adolescente pretendia pintar, como e por que, era Fukuda pai. A morte de Tamotsu interrompeu o diálogo, mas não a pintura
.”

 Fukuda  Sem Título 7 ast 180X180
Fukuda Sem Título 7 ast 180X180 cm

Fukuda continuou a pintar, seguindo o exemplo paterno. Pintar passou a ser para o jovem recém saído da adolescência, fundamental, vital. Não parou mais.

Em 1989 em exposição realizada na galeria Alencastro Guimarães de Porto Alegre escrevi algumas linhas. Dizia que:

Equilíbrio, pureza e serenidade era o que Matisse buscava na arte. Ao associar a arte a "uma confortável poltrona", o pintor de "luxe, calme et volupté" não deixou dúvidas quanto ao que pensava sobre a pintura. Refúgio seguro e calmo para se procurar depois de um dia trabalhoso, cansativo. Espécie de oásis, suave e doce...
Nos dias conturbados e difíceis que vivemos, ninguém melhor do que Fukuda compreendeu o pensamento matisseano. A pintura de Fukuda em essência reúne o equilíbrio, a pureza, a serenidade preconizada por Matisse
.”

Abaixo trechos do texto que Walmir Ayala também escreveu naquele ano, publicado no catálogo da exposição realizada em julho na Galeria Performance, de Brasília:

 Fukuda  Sem Título 17 ast 160X140
Fukuda Sem Título 17 ast 160X140 cm

Inicialmente é preciso dizer que Fukuda é uma revelação dentro da linha dos pintores japoneses instalados no Brasil e mesmo dos nipo-brasileiros. Ombreia-se em virtuosismo técnico, em domínio da matéria, em invenção de c1aridades e transparências, aos maiores mestres desta família pictórica em nosso país. Mas apresenta algo mais: um relance de raiz tecnológica, uma invasão semafórica, uma leveza que transcende a natureza da matéria, sem trair sua condição de memória terrestre.

Nosso olhar passeia por estes quadros e o prazer é permanentemente renovado, como se os organismos que Fukuda oferece a nossa contemplação encarnassem uma onda semovente de desejo, derramando sobre a dimensão palpável do real um gesto de silenciosa paixão.

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Fukuda Escultura para os jogos Panamericanos de 2007

Numa outra surpreendente declaração, Fukuda deixa claro seu processo simples e definitivo de construtor de uma poética visiva: ele armazena no dia a dia, hora por hora, sem recusar nenhuma experiência, mesmo assimilando as mais prosaicas, uma emoção abrangente que vai servir a alquimia da inspiração, e dai a matéria viva de seu universo criador. Nesta sincera confissão de princípios, Fukuda confirma o peso de sua origem racial, o que se transforma numa espontânea hora de maturidade, a serviço de uma técnica primorosa. Mas este resultado não advém de uma circunstância aleatória. Sente-se na pintura de Fukuda uma plenitude interior do gesto, que se comunica com o espectador no sentido de propor a mesma natureza de plenitude. E a sensação que se pode ter diante de Fra Angelico, que pintava em estado de graça e que purifica o espectador recriando este mesmo estado no mistério da fruição.

Estamos diante de uma grande pintura, imprevisível ao se tratar de um laboratório jovem e em possível processo de transformação. Mas o que nos deu ate agora é muito. E uma concreta lição de vigilância e poesia
.

 Kenji Fukuda
Kenji Fukuda

Poderia citar outros textos tão importantes como o de Ayala, mas acredito que seria excessivo. Sobre Fukuda escultor, escrevi pouco. Porém, a escultura que criou para os jogos Panamericanos no Rio, ano passado, fala mais do que qualquer texto. Quinze metros de figura e abstração revelam o escultor que existe por trás da tela. Surpreendente.

2008 é um ano decisivo para Fukuda. Está terminando uma fase iniciada em 1988. Iniciando outra. Totalmente diferente do que pintou até agora. Mudança radical. Um novo Fukuda vem aí.

São Paulo 25 de abril de 2008 01H45
Escrito por Carlos von Schmidt

Exposição das obras de Kenji Fukuda
De 17 de junho a 3 de julho de 2008
NovaANDRÉgaleria – Rua Estados Unidos, 2880


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